“Ele é a
propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda
pelos do mundo inteiro.” 1 João 2:2
Introdução:
Através dos benefícios outorgados à criação humana pelo
sacrifício vicário de Cristo torna-se incontestável a salvação diretiva de
Deus, contudo, por quem Jesus realmente morreu é o debate recorrente na
história da teologia da igreja e consequentemente nos grupos evangélicos
existentes, desde os ensinamentos totalmente contraditórios às Escrituras, como
é o caso do Universalismo e do Pelagianismo, até outros aceitos nas comunidades
cristãs e que produzem um teor voltado para os ensinamentos bíblicos, mas,
mesmo assim, divergem em alguns aspectos. Dentre esses aspectos divergentes
vários teólogos do passado e da contemporaneidade aprofundaram seus estudos
tentando ora minimizar essas brechas, ora defender seu ponto de vista, ambos
sob uma perspectiva puramente respaldada pelas Escrituras, ou seja, uns grupos
apontam para uma expiação limitada – é o caso de presbiterianos, batistas, congregacionais,
etc., que trazem à luz uma cristologia com base no Calvinismo – e outros veem
na expiação ilimitada como o melhor caminho – são eles na maioria os grupos
pentecostais (Assembleia de Deus, Quadrangular, Nazareno, Metodista, etc.) que
se apoiam no modelo Arminiano para defesa de sua crença.
Destarte ficar evidente que Jesus Cristo é o centro de
discussão da maioria em potencial desses grupos e que a teologia é riquíssima
em cooperar para o bom estudo da Bíblia Sagrada desde os primórdios quando
atuavam os pais da igreja e já se tentava formular pontos de vista em relação à
expiação atravessando o tempo e chegando à pós-modernidade com um leque de
muito mais adeptos em ambos os lados. Esse trabalho presta-se ao enriquecimento
do assunto e visa somar ao bom andamento das doutrinas cristãs.
Expiação Limitada
Segundo os particularistas, assim também chamados aos
adeptos da teoria da expiação limitada, argumentam que Cristo morreu somente
por um grupo de pessoas eleitas durante todas as dispensações predeterminadas
por Deus.
Expiação Ilimitada
Conforme os defensores do universalismo qualificado ou
teoria da expiação ilimitada creem que Cristo morreu por todos os homens que no
presente arrependem-se e creem no Senhor, tempo este que separa as duas vindas
de Cristo, mas, com propósitos diferenciados em relação aos salvos do passado e
consequentemente os do futuro.
Então, por quem Cristo
morreu?
A questão em debate deve ser entendida, a começar,
evitando a dogmatização extremada feita pelos grupos divergentes, pois, cada um
dos lados possuem suas bases na Bíblia e na lógica, onde a questão não é de
aplicação: Ambos admitem que nem todos serão salvos. A discórdia vem da vontade
divina em tornar a salvação possível a todos ou somente um grupo de eleitos. O
foco está na amplitude da expiação. Stanley Horton (1997) apud Thiessen concluem
o pensamento do Sínodo de Dort (1618-19): “[...] que a expiação é ilimitada no
sentido de estar à disposição de todos; é limitada no sentido de ser eficaz
somente para aqueles que creem. Está à disposição de todos, mas é eficiente
apenas para os eleitos”. A resposta, contudo, não seria tão simples assim.
Muita pesquisa e leitura são feitas por teólogos comprometidos com a verdade
das Escrituras e em ambos os pontos de vista ainda há profundidade absoluta no
assunto para se extrair muito mais. Desta forma, esta pesquisa, dentro do
estudo da Cristologia – uma das áreas da Teologia Sistemática – tenta absorver
as ideias centrais de teólogos que concentram opiniões nos dois pontos:
Expiação limitada e ilimitada como se segue nas laudas abaixo.
Stanley
M. Horton, teólogo Pentecostal norte-americano, escritor e educador (1916-2014)
apresenta em sua Teologia Sistemática uma breve alusão ao assunto em destaque,
mas deixa claro sua defesa em prol da expiação ilimitada, pois, afirma que
somente o universalismo qualificado dá sentido à oferta sincera do Evangelho a
todo o indivíduo e que antes da ascensão do Calvinismo, a expiação ilimitada
havia sido a opinião majoritária desde os primórdios da Igreja; cita ainda que
a ideia da expiação ilimitada atrai um segmento muito maior do testemunho
bíblico com menos distorção do que a expiação limitada.
É
preferível entre os Reformados a expressão Redenção Particular ao invés de
Expiação Limitada, pois esta última estaria dizendo que a obra expiatória de
Jesus fosse deficiente em algum aspecto. Wayne Grudem (2010) em sua Teologia
Sistemática esclarece algumas questões em relação a essa doutrina e o faz com
cautela quando são apresentadas as implicações pastorais desse ensino, ou seja,
tais reformados devem reconhecer o potencial de equívocos que podem suscitar a
expressão ‘Cristo morreu só por seu povo’ (uma frase ambígua) ao público
incrédulo, por amor à verdade e à preocupação pastoral em oferecer
gratuitamente o evangelho.
Já
sob a perspectiva do teólogo sistemático Lewis Sperry Chafer (2003), com uma
das maiores complexidades pela erudição do seu trabalho, argumenta que para se
entender as controvérsias entre os teólogos ortodoxos e eruditos em relação ao
assunto deve-se antecipadamente analisar a ordem dos decretos Divinos, onde
cinco deles estão diretamente relacionados com o propósito da eleição. Uma
ordem lógica, antes que cronológica – partindo do princípio de causa e efeito
na mente de Deus, onde uma questão prepara o caminho para outra e assim por
diante. Estes decretos são listados abaixo, agora sem importar a ordem divina
correta, mas somente para reconhecimento:
1 – O decreto de eleger
alguns para a salvação e deixar outro entregues à justa condenação deles;
2 – O decreto de criar
todos os homens;
3 – O decreto de
permitir a queda;
4 – O decreto de
providenciar salvação para os homens;
5 – O decreto de
aplicar a salvação aos homens.
Chafer mostra que quatro escolas de interpretação são
reconhecidas, cada uma defendendo uma ordem específica na ordenação destes
decretos eletivos, ou seja, calvinistas supralapsarianos (1, 2, 3, 4 e 5),
calvinistas infralapsarianos (2, 3, 4, 4 e 1), calvinistas sublapsarianos (2,
3, 1, 4 e 5) e arminianos (2, 3, 1, 4 e 5 – a ordem aqui é idêntica à visão
infralapsariana, exceto a visão arminiana da eleição). A partir do momento que
são movidas em ordens diferenciadas esses cinco pontos, obviamente os
resultados serão diferentes. “As escolas calvinistas são o resultado de uma
indução fiel da Palavra de Deus relacionada com os decretos eletivos, enquanto
que a escola arminiana é uma intrusão da razão humana” (CHAFER, 2003, vol. 3 e
4, p. 181).
Contudo, o próprio Chafer levanta um questionamento:
“Como pode um evangelho universal ser pregado, se não há uma provisão
universal?” (CHAFER, 2003, vol. 3 e 4, p. 181), ou seja, isso implica dizer que
Cristo não morreu para os não eleitos, mas sua expiação vicária é a base onde a
salvação é oferecida a todo o mundo; perigosamente uma contradição.
Aparentemente, Louis Berkrof (2009) produz um texto mostrando
o propósito da expiação destinado a afetar a relação de Deus com o pecador, ou
seja, a expiação não só tornou possível a salvação para o ser humano, como
também a garantiu, contudo, o mesmo não foge a regra: Qual a extensão dessa
expiação? Ele argumenta que o ponto exato da expiação está centralizado na
seguinte afirmativa: “A Bíblia ensina claramente que a finalidade e o efeito da
obra expiatória de Cristo não consistem apenas em tornar possível a salvação,
mas, sim, em reconciliar Deus com o homem e dar aos homens efetiva posse da
salvação eterna, uma salvação que muitos não conseguem obter” (BERKHOF, 2009,
p. 364).
Quadro Explicativo da
Relação entre Expiação Limitada e Ilimitada
A síntese desta pesquisa pode ser suficientemente
resumida no quadro abaixo que trás uma visão abrangente do que esses quatro
teólogos sistemáticos (Horton, Chafer, Berkof e Grudem) apontaram em sua
produção literária tendo como centro Cristo e o tipo de expiação por eles
defendida. Levando em conta a definição de Expiação como sendo o “[...] aspecto
da obra de Cristo, e particularmente sua morte, que torna possível a restauração
da comunhão entre indivíduos que creem em Deus” (ERICKSON, 2011, p. 77), a
palavra expiação só é encontrada no Antigo Testamento – kãphar – usado
aproximadamente setenta vezes, cujo significado é cobrir, ou seja, Deus
perdoava e restaurava o indivíduo onde o pecado era somente coberto pelo
sacrifício de animais, isto de forma típica e não real. No Novo Testamento a
palavra expiação não é realmente encontrada. A palavra que trás o significado
mais próximo dessa verdade é reconciliação e seu significado é trazer duas
pessoas, antes separadas, para um estado de concordância (CHAFER, 2003).
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Expiação
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Ilimitada
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Limitada
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Pelagianismo
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Universalismo
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Por quem Jesus morreu?
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Por
todos os seres humanos que atestam uma fé em Cristo no presente.
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Somente
pelos que Deus elegeu desde a fundação dos tempos.
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Somente
como exemplo para os pecadores.
|
Por
todos os seres humanos, pelos anjos decaídos, e em todas as eras.
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Aplicação da Expiação
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Deus
resgatará a tantos quantos crerem em seu Filho Jesus.
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É
extremamente rigoroso o desígnio de Deus em favor somente dos seus eleitos.
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Qualquer
ser humano, desde que tenha uma vida piedosa como Cristo, poderá adquirir sua
expiação; heresia do Pelagianismo.
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Deus
em seu infinito amor sobrepujará toda forma de pecado, o que é tido como
heresia pelos teólogos ortodoxos.
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Como é visto o pecado
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Nascemos
pecadores e culpados pelos nossos pecados herdados da queda de Adão.
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Nascemos
pecadores e culpados em Adão.
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Nascemos
sem pecado como Adão, mas pecamos no decorrer da vida, ou seja, negam o
pecado original.
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Somos
pecadores, porém culpados somente pelos nossos erros e não pelos de Adão.
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Pontos fortes dessa doutrina
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Os
que defendem a expiação ilimitada reconhecem aspectos dispensacionalistas dos
tratamentos divinos com os homens onde o aspecto universal da morte de Cristo
é aplicado somente à Igreja na era presente.
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A
eleição incondicional afirma que Deus elege pessoas para a salvação baseado
inteiramente em Sua vontade, e não em nada que seja inerente à pessoa, bem
como sua graça irresistível onde Deus chama alguém para a salvação, e esta
pessoa inevitavelmente virá a ser salva.
|
Ao
criar o homem Deus não o submete, como as outras criaturas, com a lei da
natureza, mas deu-lhe o privilégio único de realizar a vontade divina por sua
própria escolha. Esta possibilidade de escolher livremente o bem implica
a possibilidade de escolher o mal em uma responsabilidade moral.
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Deus
não pode agir independentemente do amor e que Deus tem sempre o propósito de
expressar Seu amor em tudo o que faz.
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Pontos fracos desta doutrina
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A
depravação parcial defende que cada aspecto da humanidade está contaminado
pelo pecado, mas não ao ponto de fazer que os homens sejam incapazes de
colocar sua fé em Deus por iniciativa própria; surge a graça resistível.
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Ignoram
as distinções das dispensações reconhecendo um propósito eletivo de Deus
incluindo toda raça humana em sucessão contínua.
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Não
reconhecem que só com a ajuda da graça divina pode um indivíduo superar a
força do pecado e viver corretamente diante de Deus.
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Todos
os seres humanos e angelicais criados por Deus, sem exceção, serão salvos e
irão para o céu. Não existe nenhum inferno eterno.
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Justificativas Bíblicas
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Hb.
2.9;
Jo.
3.16;
Jo.
1. 29;
I
Tm. 2.4;
I
Jo. 2.2.
|
Jo.
10.11,15;
Ef.
5.25-27;
At.
20.28;
Mt.
1.21;
Rm.
8.32-35;
Jo.
6. 37-39.
|
I
Jo. 4. 8, 13.
|
At.
3.21.
|
Figura
1 – Relação entre expiação e as doutrinas a ela aplicadas.
Considerações Finais
No processo de trazer o maior número possível de almas à
salvação a discussão entre defensores da redenção limitada e ilimitada são
usados vários textos das Escrituras tentando harmonizar os conflitos ou mesmo
apontando uma única verdade em detrimento da outra. Naturalmente o Evangelho
deve ser entendido por aqueles pelos quais são pregados, os homens e mulheres
comprometidos com a verdade. Muito do que está escrito ainda é oculto à razão
humana e o que Deus tem preparado para os seus escolhidos é inefável e se
harmoniza perfeitamente como que Jesus Cristo ensinou e nos deixou a seguir. Um
ponto principal para diminuir essa lacuna existente entre os que creem numa
expiação limitada e também ilimitada é saber prudentemente que uma vida de
santidade é a margem crucial para que o ser humano possa estar no plano
salvador de Deus, pois, não será Deus derrotado se os homens por quem Cristo
morreu forem condenados, tendo em vista a morte de Cristo ser uma transação
consumada, sendo mais do que real em sua disponibilidade, contudo potencial
para salvar.
Embora sejam expressões de uso comum entre grandes
teólogos, os termos expiação limitada e ilimitada são insuficientes para
expressarem a dimensão do plano Divino relativo a elas. A palavra expiação é de
certa forma melhor estudada quando a ela introduzimos outras palavras, como, redenção,
reconciliação, propiciação, regeneração, justificação e santificação que também
asseguram bênçãos espirituais através da morte de Cristo, mesmo que tratadas de
forma distintas em seus conceitos. A obra consumada de Cristo tem total êxito
quando a ação de todas essas palavras é absorvida pelos cristãos e vivenciada
em seu cotidiano.
Referências:
BERKHOF, Louis. Teologia
Sistemática. Trad. Odayr Olivetti – 3ª Ed. Revisada. São Paulo: Cultura
Cristã, 2009.
CHAFER, Lewis Sperry. Teologia
Sistemática. Trad. Heber Carlos de Campos – Vol. 3 e 4. São Paulo: Hagnos,
2003.
CHAFER, Lewis Sperry. Teologia
Sistemática. Trad. Heber Carlos de Campos – Vol. 7 e 8. São Paulo: Hagnos,
2003.
ERICKSON, Millard J. Dicionário
Popular de Teologia. São Paulo: Mundo Cristão, 2011.
GRUDEM, Wayne. Teologia
Sistemática: Atual e Exaustiva. Trad. Norio Yamakami; Lucy Yamakami; Luiz
A. T. Sayão; Eduardo Pereira e Ferreira – 2ª Ed. São Paulo: Vida Nova, 2010.
HORTON, Stanley M. Teologia
Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Trad. N Chown. Rio de Janeiro:
CPAD, 1996.
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